Foto/Divulgação: Thiago Lontra
Fundada pela ex-deputada Tânia Rodrigues, que faleceu em maio de 2026, a associação mantém o seu legado de luta pelas pessoas com deficiência no Estado do Rio de Janeiro. Projeto de lei aprovado no Parlamento fluminense propõe eternizar o nome da parlamentar em rodovia próxima à sede da entidade, em Niterói
Quem circula pelos corredores da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) convive com um legado direto de Tânia Rodrigues: a Associação Niteroiense dos Deficientes Físicos (Andef), que ela fundou em 1981 e que hoje emprega 658 colaboradores com deficiência em convênios com empresas públicas e privadas. No Parlamento fluminense, a entidade atua em serviços como oficina de reparos prediais, manutenção mecânica da frota, atendimento no Alô Alerj, recepção, operação dos elevadores e telefonia interna e externa.
Ex-deputada estadual, que faleceu em maio deste ano, Tânia pode ter seu nome eternizado em uma estrada fluminense. O Projeto de Lei 7.106/26 foi aprovado pela Casa e propõe batizar a Rodovia RJ-100, no trecho de Niterói próximo à sede da Andef, em sua homenagem. O texto segue para o Governo do Estado, que terá prazo de até 15 dias úteis para sancionar ou vetar a proposta.
“Visibilidade.” É com essa palavra que Vera Pontes, de 60 anos, define o que representa, para uma pessoa com deficiência, trabalhar na Alerj. Telefonista da Casa pela Andef desde 2019, ela contraiu poliomielite aos dois anos de idade e desde então convive com a deficiência física. Para ela, a parceria entre as instituições transforma vidas e contribui para um Estado do Rio de Janeiro mais inclusivo.
“Nós somos o coração da comunicação entre o Parlamento e o cidadão. Com uma ligação, a telefonia pode ser a porta de entrada para as demandas da população”, afirmou. Vera explica que uma inclusão bem feita transforma a pessoa com deficiência pessoalmente e profissionalmente. “Eu mesma mudei muito desde que comecei a trabalhar aqui e acredito que a Alerj também ganhou com a presença de pessoas com deficiência”, completou.
A acessibilidade do prédio, segundo ela, contribui diretamente. O Edifício Lúcio Costa, sede do Parlamento, foi planejado com base na Norma Brasileira de Acessibilidade a edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos (ABNT NBR 9050), estabelecida por lei federal. A norma técnica designa critérios e parâmetros para condições de acessibilidade, ou seja, determina espaços mínimos, distâncias regulamentares e a necessidade de mobilidade para ambientes públicos comerciais. “Da entrada à sala em que trabalho, tudo foi pensado para nós. São rampas, corredores amplos e elevadores adaptados que garantem que eu tenha autonomia e segurança”, disse Vera.
Inclusão: reabilitação, esporte e trabalho
Empregabilidade, esporte e reabilitação são as três frentes complementares de atuação da Andef, entidade que mantém cerca de 22 contratos pelo estado e foi responsável por ajudar a fundar o Comitê Paralímpico Brasileiro. Quando integra a empresa, a pessoa com deficiência passa pela recuperação física, mas também é integrada ao esporte ou ao mercado de trabalho. Felipe Soares de 27 anos é um exemplo vivo desse percurso. Chegou à Andef aos 15 anos, para fazer fisioterapia. De lá, foi convidado para a dança inclusiva e, depois, para o basquete em cadeira de rodas.
“Quando eu me sentei naquela cadeira e comecei a praticar basquete, senti uma liberdade que não sentia há muito tempo”, relatou. O basquete o levou a outros estados e países, como os Emirados Árabes. Hoje, Felipe integra a equipe de RH da própria Andef. “Eu gosto muito de dizer que, através da deficiência, na cadeira de rodas, eu pude voar. A cadeira de rodas me deu asas”, disse.
Leis que ficaram
Deputada estadual entre 1995 e 2003 e nos anos de 2015 e 2016, Tânia se tornou referência na luta pelos direitos das pessoas com deficiência. Antes da Alerj, foi vereadora de Niterói. Ao longo do mandato, foi autora de importantes leis voltadas à prevenção de deficiências, como a que tornou obrigatório o uso do cinto de segurança nos automóveis no Estado do Rio de Janeiro, quando ainda não havia regulamentação do Conselho Nacional de Trânsito sobre o tema. Também presidiu e relatou importantes CPIs, como a que avaliou as condições dos bancos de sangue no estado e a comissão que analisou as condições dos abrigos para idosos.
Emocionada, sua filha, Camila Rodrigues, relata que a intitulação da rua da Andef com o nome de Tânia era um sonho de sua mãe ainda em vida. “Ela dedicou toda a vida à Andef e impactou diretamente milhares de pessoas com deficiência. A aprovação desse projeto é o reconhecimento de toda a sua luta”, reforçou.
