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O caso da mulher que simulou um pedido de pizza ao 190 para pedir socorro enquanto era ameaçada pelo companheiro na Zona Sul de São Paulo reacendeu uma discussão sensível dentro da segurança pública: os limites do modelo tradicional de atendimento em situações de violência doméstica.
Na ocorrência, a vítima improvisou um código durante a ligação para não despertar a atenção do agressor. A atendente entendeu o pedido de socorro e acionou equipes da Polícia Militar, que chegaram ao local dizendo que “a pizza havia chegado”. O homem acabou preso armado, após uma sequência de agressões e ameaças dentro da residência.
O episódio chama atenção porque evidencia um padrão recorrente nesse tipo de crime: muitas vítimas não conseguem falar abertamente ao telefone no momento do pedido de ajuda. Em diversos casos, elas estão sob ameaça direta, escondidas ou tentando evitar reações ainda mais violentas do agressor.
É justamente nesse ponto que começam a surgir discussões sobre o uso de novas tecnologias aplicadas ao atendimento de emergências.
A VIU Teleport, empresa que recentemente validou sua tecnologia em provas de conceito junto ao COPOM de São Paulo e outras cidades, trabalha com um modelo que permite acionamentos sem necessidade de comunicação verbal, por meio de compartilhamento de localização, vídeo em tempo real e troca de mensagens.
Na prática, a proposta é ampliar a capacidade de leitura da ocorrência pela central, reduzindo a dependência exclusiva do relato por voz. Em situações de violência doméstica, isso pode representar uma alternativa mais discreta para vítimas que não conseguem verbalizar o pedido de socorro.
“A maior parte das centrais de emergência ainda foi estruturada para um cenário em que a vítima consegue falar livremente ao telefone. Em casos de violência doméstica, muitas vezes isso simplesmente não é possível. O que buscamos fazer é criar canais adicionais de comunicação para que a central consiga entender a gravidade da ocorrência mesmo em situações de silêncio ou limitação verbal”, afirma Jason Sprenger, fundador e CEO da VIU.
A tecnologia já opera em cidades como Bogotá e Cidade do México, em estruturas ligadas ao atendimento de emergências e segurança pública. Segundo a empresa, além de qualificar a resposta em ocorrências críticas, a ferramenta também contribui para melhorar a triagem dos chamados e reduzir deslocamentos desnecessários gerados por trotes ou informações incompletas.
“O envio de vídeo, localização e informações em tempo real ajuda não apenas no tempo de resposta, mas também na tomada de decisão das equipes. Isso reduz incertezas para o operador e pode evitar tanto subdimensionamento quanto deslocamentos desnecessários”, completa o executivo.
O episódio também amplia a discussão sobre como os órgãos de segurança pública podem adaptar seus protocolos para lidar com uma dinâmica de violência em que, muitas vezes, o silêncio da vítima faz parte da própria situação de risco.
Em paralelo, movimentos recentes do governo paulista, como a nomeação da primeira mulher para o comando da Polícia Militar pelo governador Tarcísio de Freitas, indicam uma tentativa de ampliar o diálogo institucional sobre violência de gênero e atendimento às mulheres.
Nesse cenário, cresce o debate sobre como tecnologia, inteligência operacional e novos formatos de interação com as centrais podem ajudar a preencher lacunas históricas no atendimento desse tipo de ocorrência.
Fonte: Gustavo Bechara
