Espetáculo Neutralizados Foto: Divulgação
A memória das favelas, as marcas da militarização e a luta pelo direito à existência e à liberdade de expressão são os eixos de “Neutralizados”, espetáculo criado por artistas da Maré e de outras favelas do Rio de Janeiro. A montagem gratuita estreia no dia 6 de novembro, às 20h, no Teatro Firjan SESI Caxias, em Duque de Caxias. A sessão contará com intérprete de Libras e a classificação indicativa é de 12 anos.
A peça parte da ocupação militar do Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro, em 2014, no período que antecedeu a Copa do Mundo, para questionar as políticas de segurança pública e os discursos que transformam territórios populares em espaços associados à ameaça e ao perigo.
Ao mesmo tempo, o espetáculo destaca a potência cultural da comunidade, celebrando o samba, a alegria e a criatividade dos corpos favelados, que resistem e reinventam o cotidiano diante das tentativas de apagamento de suas histórias e vivências promovidas pela força opressora do Estado.
“O que me interessa para esse espetáculo é que a plateia esteja diante de dois universos que acontecem concomitantemente na favela. Um pouco da sensação limite que se tem diariamente, que traduzo e diluo, ora em cenas muito tensas, ora em cenas que mostram o que há de mais fascinante em morar nela. É a partir dessa provocação que a encenação discorre sobre fatos ocultos para a sociedade e propõe, por meio da imagética, das sonoridades, das visualidades e da ancestralidade, uma reflexão sobre de que ponto de vista a favela é enxergada ou contada”, define Renata Tavares, encenadora do espetáculo.
“Neutralizados” busca manter viva essa memória e discutir a favela como espaço de construção ancestral e afetiva. A obra também afirma que as ações violentas ocorridas no território são consequências da atuação de um Estado que, há mais de 130 anos, despreza sua existência.
Inspiração em livro sobre militarização e censura na Maré
Inspirado no livro Militarização e Censura – a luta pela liberdade de expressão na Favela da Maré, da jornalista e comunicadora social Gizele Martins, o espetáculo questiona quem tem direito à cidade.
A obra aborda as múltiplas camadas de desigualdade e desprezo social que atravessam a história das favelas e a desumanização de seus moradores. Em contraponto a essa realidade, moradoras e moradores que construíram suas vidas nesses territórios contestam essa visão. Assim como a vida de quem vive e narra a favela, a peça percorre caminhos de resistência, paixão e deboche para sobreviver aos tempos sombrios impostos aos territórios populares.
Valorização a cultura e as vivências das favelas
Formado por artistas da Maré e de outros territórios populares do Rio de Janeiro, o Coletivo de Teatro da Maré aposta na arte como instrumento de conscientização, preservação da memória e valorização das experiências de quem constrói a vida nas favelas.
Em um país marcado pelas desigualdades sociais e pelos impactos históricos da escravidão, o cotidiano das favelas é atravessado pela violência, mas também pela resistência, pela cultura e pela força coletiva de seus moradores.
É a partir dessa realidade que o espetáculo propõe uma reflexão sobre as opressões vividas nos territórios populares e reivindica o direito à vida, à ancestralidade e à dignidade.
“A violência e as opressões vividas nas favelas cariocas são o retrato de um Brasil escravocrata, fruto da exploração. Entretanto, não somos reduzidos a esse estigma. Enquanto muitos afirmam com propriedade que a favela é um lugar violento, rebato: ela é e tem sido violentada. O espetáculo que escrevi reúne pensamentos de quem vive na pele, na carne e nos nervos um cotidiano que pode ser muito instável”, pontua o dramaturgo Matheus Frazão.
“Ao mesmo tempo que somos reféns de uma guerra que não parece ter fim, somos enraizados em nossa cultura: o samba, a macumba, a coletividade, a rua enquanto quintal da nossa casa. Mostrar esse outro lado é dizer que queremos poder viver nossa ancestralidade sem ter medo, porque não é só a bala que mata. Há mortes lentas, que acontecem dia após dia, devido ao desgaste provocado pelo empobrecimento do povo. O teatro é um lugar político, aqueles corpos que contam essa história são políticos, temos um lado e o nosso lado é o do povo, do povo com vida e dignidade”, completa Frazão.
Integração do edital Mosaico Rio, da Firjan SESI
Contemplado pelo edital Mosaico Rio, da Firjan SESI, o espetáculo utiliza a palavra, a musicalidade, os jogos cênicos e as projeções para contextualizar as ações do Estado e a construção da imagem da Maré como um território perigoso às vésperas de um grande evento de visibilidade internacional.
Ficha técnica
Dramaturgia: Matheus Frazão
Encenação e dramaturgia musical: Renata Tavares
Elenco: Carlos Emanoel, Heloiza Cintra, Jade Cardozo, Kátiaa Deusa e Thiago Manzotti
Músico e trilha: Matheus Tavares
Pesquisa audiovisual e sonora, edição de vídeo, operação de som e projeção: Edson Martins
Figurinista: Jade Cardozo
Cenografia: A Day
Assistente de cenografia: Vênus Cabocla
Iluminação e operação de luz: Lucas da Silva
Desenho gráfico: Thiago Manzotti
Assessoria de imprensa: Alessandra Costa
Fotógrafo: Marco Brendon
Coordenação administrativa e financeira: CEASM
Assistência de produção: Maicon Douglas
Direção de produção: Heloiza Cintra
Serviço
Espetáculo: Neutralizados
Data: 6 de novembro, às 20h
Local: Teatro Firjan SESI Caxias
Endereço: Rua Arthur Neiva, 100, Centro, Duque de Caxias
Gênero: Teatro adulto
Duração: 60 minutos
Classificação indicativa: 12 anos
Entrada: Gratuita
Acessibilidade: Sessão do dia 6 de novembro com intérprete de Libras.
Fonte: Joyce Nogueira
