Luiz Roberto comemora com profissionais da Oncomed. Foto/Divulgação
Agenda segue nesta quinta, 29, com roda de conversa, e dia 31 com caminhada em Icaraí para alertar sobre os cuidados e a prevenção ao câncer de mama
“Nunca percam a fé!”. Essa foi uma das muitas recomendações deixadas por personalidades que, das mais diversas formas, convivem com o câncer e participaram voluntariamente da 10ª edição do Nosso Dia Pink (NDP). Uma das ações da campanha Outubro Rosa promovida pela Oncomed e a PróOnco Mulher para orientar a população sobre a prevenção e os cuidados com o tumor de mama, o evento reuniu 500 pessoas no último sábado, 24, na Sala Nelson Pereira dos Santos do Reserva Cultural, em Niterói, em um dia inteiro de atividades gratuitas, como palestras, dinâmicas e shows. Um deles foi do cantor Bochecha, que chegou de surpresa, alegrou a plateia cantando por 30 minutos muitos de seus sucessos e se despediu cantando o louvor “Faz um milagre em mim”, reforçando a importância da fé no enfrentamento da doença que, por ano, registra cerca de 2,4 milhões novos casos no mundo e é a maior causa de morte entre mulheres.
Entre as mais animadas com a apresentação de Bochecha estava Laryssa Rodrigues, 33 anos, que em 2021 tratou um câncer de ovário, em 2025 descobriu metástase e segue firme no tratamento. Depois do cantor percorrer algumas fileiras em interação direta com a plateia e retornar ao palco, ela não resistiu: foi atrás e dançou até o fim do show. “Gratificante vermos a alegria de uma paciente que enfrenta suas dificuldades e vive a vida”, disse o mastologista e cirurgião oncológico Rodrigo Souto, diretor da PróOnco e do Instituto Oncomed, e idealizador do Outubro Rosa e do Nosso Dia Pink, criado justamente para levar vida a quem enfrenta a doença.

A agenda do Outubro Rosa das duas clínicas oncológicas de Niterói segue nesta quinta-feira, dia 29, com a Roda de Conversa no espaço cultural Walma Erthal, na unidade São Francisco da Oncomed. A atividade será das 14h às 17h, conduzida por Rodrigo Souto com a psicóloga e psicanalista Christiane Couri, coordenadora do Serviço de Psicologia da Oncomed, e a geriatra e clínica geral Marcelle Xavier, também da instituição. As vagas são limitadas e os interessados devem fazer a inscrição enviando mensagem pelo WhatsApp (21) 99971-2355. A última ação do mês será sábado, dia 31, com o apoio à Caminhada Outubro Rosa na Praia de Icaraí. Organizado pelo Movimento Outubro Rosa de Niterói e com participação da Prefeitura de Niterói, o evento tem concentração às 8h na Árvore da juíza Patrícia Acioli, e início às 9h no calçadão em frente à Reitoria da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Narrador esportivo detalha desafios da doença em plena Copa do Mundo
Como nos últimos anos, o Nosso Dia Pink ofereceu dinâmicas e palestras gratuitas com orientações sobre o câncer de mama, em depoimentos de influenciadores com troca de experiências, momentos ricos de interação e muita emoção proporcionados por convidados como o narrador esportivo Luís Roberto da TV Globo, que recentemente concluiu o tratamento de um câncer de cabeça e pescoço. Numa espécie de talk show conduzido pela jornalista Lilian Ribeiro – da mesma emissora e que também venceu um tumor, o de mama, descoberto há cinco anos e que esteve ano passado no NDP -, ele detalhou os desafios com a doença descoberta em plena Copa do Mundo 2026.

“Foi o momento de maior desafio na profissão, e em especial para contar à minha mãe de 92 anos, pois os antigos sequer falam a palavra câncer. É sempre “aquela doença”. Mas temos que falar cada vez mais em câncer e ficar atentos ao nosso corpo em relação a esta doença silenciosa. E estar aqui com vocês é uma oportunidade de fazer isso, de dizer que câncer não é sinal de morte e que esta doença nos amadurece. Eu me tornei mais corajoso, resiliente e amoroso com as pequenas coisas, como perceber o valor de abrir os olhos e tomar café com quem a gente ama. Hoje entendo que devemos fazer a vida valer a pena, como estar aqui agora. Estou encantado com esse evento maravilhoso que confirma que a vida é boa. E viva o Nosso Dia Pink!”, disse Luiz Roberto emocionado.

Dividindo o espaço com Luiz Roberto e Lilian Ribeiro, o empresário e montanhista Roman Romancini – que ficou nove meses sem andar ao ser atropelado em 2011, quando treinava para escalar o Everest, e logo depois enfrentou um câncer de tireoide – falou da importância da família e do sobrefôlego que toda a pessoa tem e deve acionar para vencer os desafios. O 18º brasileiro a atingir o cume do Everest, Roman contou sua trajetória que serve de incentivo de luta pela sobrevivência, como fez e faz na subida de montanhas. “A vida muda os nossos planos, mas somos muito adaptáveis, pois temos o que chamo de sobrefôlego que nos ajuda a resistir e vencer. Basta termos foco e lutar”, disse o montanhista.
O histórico e as novidades do NDP
Quando decidiu idealizar o Nosso Dia Pink, Rodrigo Souto contou com a dedicação dos oncologistas Victor Marcondes e Vivian Pontes, da farmacêutica Flavia Barros e da nutricionista oncológica Patrícia Arraes, todos da Oncomed. E o evento que começou pequeno foi realizado pelo quarto ano consecutivo no Reserva Cultural, atraindo cada vez mais pessoas, em sua maioria mulheres pacientes do câncer de mama, além de familiares, médicos, enfermeiros e outros profissionais de áreas voltadas à doença.
Mas nem só de mulheres é formada a plateia do Nosso Dia Pink. Jorge Luiz da Silva faz questão de acompanhar a esposa Carla, que em 2017 descobriu um câncer de mama já com metástase óssea. Ela operou, fez radioterapia e desde então faz hormonioterapia, estabilizada desde 2018. “E seguimos juntos, com a família sempre junta nos exames, nas cirurgias, nas consultas e, claro, em eventos de conscientização e suporte como o Dia Pink, que faz toda a diferença para pacientes e familiares”, destacou Jorge, casado há 33 anos com Carla e pais de Ana Beatriz, de 31 anos, que também participa do evento.
Uma das novidades da 10ª edição do Nosso Dia Pink foi o vídeo de 25 minutos com dicas de alimentos saudáveis da nutricionista Patrícia Arraes para o prato de peixe preparado por Rodrigo Souto. “Cozinhar é o momento que me desestresso”, revelou o médico, que tem uma dura rotina de dois consultórios de segunda a quinta-feira, e na sexta-feira passa o dia operando no centro cirúrgico do Hospital Icaraí. A ideia agradou tanto que algumas pacientes presentes ao evento pediram aos dois protagonistas para manterem o projeto, pelo menos, uma vez por mês. E deu certo, com o quadro já batizado de Prevenção à Mesa.
A alegria dos palhaços – O NDP começou com dez mulheres que venceram a doença juntas no palco, lendo histórias que remeteram à criação do evento consagrado como o maior e mais concorrido do Outubro Rosa das duas instituições oncológicas de Niterói. Em seguida, Patrícia Arraes deu as boas-vindas e convidou todos os presentes a extravasarem a criança que habita em cada um, anunciando o grupo de palhaços Servos da Alegria, que leva alegria a hospitais de diversas cidades e deu o tom ao encontro. “Aqui reunimos pessoas em um só coração, com amor pela causa e atividades que não cabem num palco e emoções que não cabem num só peito”, disse a nutricionista.
Após as mímicas, mágicas e muita interação dos palhaços, a atriz Henriette Porciuncula conduziu o evento que, em meio a diversas atividades, lembrou da importância de exercícios físicos, a alimentação saudável, os exames preventivos e outros cuidados em palestras como a da escritora Kika Gama Lobo que, pelo segundo ano consecutivo, levou para o NDP o tema libido. Em uma fala aberta e divertida, Kika – que passou por um câncer há 15 anos, é colunista semanal da Veja Rio sobre a passagem do tempo, tem 90 mil seguidores no instagram e é autora de três livros – envolveu a plateia em momentos de informação sobre educação financeira, e de risos ao tratar de assuntos ainda tabu como pornografia, traição e disfunção erétil, e contar suas histórias repletas de desafios, superação e emoção.
“Foi pelo câncer que mudei a minha vida, quando o médico me disse que eu ia morrer. Me organizei financeiramente e percebi que a libido não é só sexo, que o importante é estarmos juntos de verdade, ou então melhor sozinho. Aí percebi que a libido é a nossa força propulsora para viver, e o nosso desafio é justamente encontrar o prazer que nos faz vencer as dificuldades. Seja nas artes, nas amizades ou na escrita, como eu encontrei. E aí é não deixar que o câncer seja na nossa cabeça uma espada que separa a vida da morte”, alertou a escritora, criadora do podcast PODPAU para entrevistas de homens maduros para a discussão do chamado sexo grisalho.
Kika falou também dos benefícios do uso de produtos de estímulos sexuais, arrancando interesses e risos de muitos presentes. No fim da palestra, ela contou com a participação da terapeuta integrativa Marcelle Jordão, que trabalha com saúde mental e também ressaltou a importância das mulheres explorarem a sua libido. “E isso mesmo após passar pelo câncer”, destacou Marcelle, que participa há anos do NDP.
Tratamento no SUS – O painel seguinte foi da ex-modelo e influencer Gi Charaba, que mais uma vez falou sobre o tratamento do câncer no Sistema Único de Saúde (SUS), lembrando que a assistência médica é direito de todos. “Em São Paulo não crescemos com a cultura de plano de saúde, nos tratamos no SUS, que tem quase tudo. O problema é a dificuldade em conseguir o tratamento e os remédios com a rapidez que certas doenças exigem, como o câncer. E temos leis que nos protegem em todo o país. Só que às vezes precisamos brigar por nossos direitos”, alertou a ex-modelo, que teve a carreira interrompida por um câncer de mama.
Gi dividiu a palestra com Jussara Del Moral, a Jussara Supervivente, Supervivente, há quase 20 anos com câncer metastático e um exemplo de persistência, esperança e fé, sempre presente no Nosso Dia Pink. “Não dá pra dizer que é fácil, pois é duro. São 20 anos fazendo quimio e às vezes tendo reações. Fico injuriada, mas vivo. A vida exige muitíssimo de cada um de nós, mesmo sem câncer. E por isso sempre alerto para a importância de estarmos atentos aos sinais que o corpo dá e a gente deixa passar. Mas sigo firme e vivendo a vida”, disse Jussara.
Juntas, elas receberam a técnica de enfermagem Maria das Dores, Dorinha, que há anos trabalha no Hospital Mario Kroeff, instituição filantrópica conveniada ao SUS. De cuidadora, ela passou a ser cuidada em 2022, por conta de um câncer de mama e, descoberta por Lilian Ribeiro, virou personagem de matéria sobre o Outubro Rosa na TV Globo, exibida na semana passada. “Tive o melhor tratamento no Mario Kroeff, e hoje entendo ainda melhor o que vai na cabeça e no coração de quem passa por essa doença desafiadora”, disse Dorinha.
Sino de volta ao palco – Com Gi no palco, a técnica de enfermagem tocou o sino trazido da unidade Botafogo da Oncomed, onde é mantido para ser acionado por todos que terminam as sessões de radioterapia. Elas foram acompanhadas por todas na plateia, com guisos que receberam para representar o sino simbolismo de cura, de vitória. “Desde que terminei as rádios carrego um pequeno sino que toco tanto para comemorar como para me fortalecer. E devemos sempre tocar o sino da nossa vida, pois milhares de pessoas não conseguem viver para isso. Então, toquem o sino da vida de vocês todos os dias”, recomendou Gi, que serviu de inspiração ano passado para a inclusão do sino no Dia Pink.
Outra a subir ao palco e tocar o sino no Nosso Dia Pink foi a paciente Rosa Amélia Paixão, que acaba de concluir os dez anos de hormonioterapia, não queria saber de sino, mas se rendeu ao simbolismo. “Aprendi aqui com a Gi a entender o significado do sino e a importância de usá-lo. Hoje agradeço a Deus por passar pela dura prova do câncer e vencer, o que não conseguiria sem o apoio incondicional das pessoas maravilhosas da Oncomed e da PróOnco”, ressaltou Rosa, que subiu ao palco e tocou o sino com vontade, também tocado pelo narrador esportivo Luiz Roberto, Acompanhado do médico Rodrigo Souto.
Na tatuagem da aréola, o símbolo do recomeço
Mais uma vez, a tatuadora Deisi Bigo participou do evento para falar da importância da tatuagem de aréola como recuperação da autoestima da mulher. “A aréola tem um significado muito forte. Além de ser meio de alimentação, ela compõe o feminino. Cada cicatriz na mama que me chega carrega uma história, e cada aréola que reconstruo representa uma mulher que decidiu seguir em frente e me conecta com histórias de coragem, superação, de recomeços… E todos devem e podem recomeçar”, disse Deisi, que teve a fala muito bem recebida, como ressaltou a fisioterapeuta oncológica Penha Pacheco, que trabalhou anos no Instituto Nacional do Câncer (Inca), se aposentou e segue atuando há 15 anos na Associação RioAbrace, de apoio a Pacientes oncológicos, em OIaria, na Zona Norte do Rio.
“É fundamental que o câncer seja enfrentado com fé e força e que venham os recomeços, como tratado aqui nesse movimento bonito, rico em emoção e conhecimento. Vim convidada por minha amiga Danielle Florentino, que conheci nos tempos do Inca e é da equipe da Oncomed, que está de parabéns pelo nível desse evento. Estou maravilhada com o Dia Pink e virei sempre”, disse Penha, que mora no Méier e atravessou cedo a Baía de Guanabara com a amiga Cristiane Cardoso, também da RioAbrace.
Entre os momentos de muita emoção do evento, a artista Daniela Fontan fez uma singela declaração de amor à prima Pamella Lessa, paciente da Oncomed que recentemente também venceu um câncer de mama. Além de agradecer a Deus pela vida da prima que considera irmã, Dani cantou a música “Gente Feliz”, dedicada a todos os presentes que tiveram a coragem de lutar contra a doença.
A última palestra do Nosso Dia Pink foi do geneticista Antonio Abílio, da Oncomed, que falou sobre a influência dos fatores hereditários e genéticos no desenvolvimento do câncer de mama, lembrando que genética não é destino, é mutação. “E o câncer não define nenhum de nós”, disse o geneticista que dividiu o palco com a médica onco-hematologista pernambucana Paola Tôrres. Escritora, professora universitária, cordelista e cantora, ela veio do Recife para contar detalhes do câncer de ovário que teve, fechando o evento com a leitura de um cordel feito especialmente para o Nosso Dia Pink e tocando ao violão músicas de Caetano Veloso e Gonzaguinha, como “O que é, o que é”, acompanhada por toda a plateia que cantou feliz a uma só voz.
O evento foi encerrado por Rodrigo Souto, que agradeceu a todos os presentes. “Gratidão por vocês estarem aqui, pois nada disso teria sentido e nada conseguiríamos fazer sem vocês. Esperamos vocês em 2027”, disse emocionado o médico Rodrigo Souto ao lado da nutricionista Patrícia Arraes, que também agradeceu e fez o convite para a próxima edição do Dia Pink. “Obrigada por vocês existirem e até o ano que vem”.
Fonte: Jeline Rocha
