Segundo pesquisa do DataSenado, jovens entre 16 e 29 anos se informam mais pelas redes sociais; jornalista da Agência Lupa, empresa especialista em checagem de fatos no Brasil, aponta os cuidados para combater a desinformação durante o período eleitoral
Durante as eleições, antes mesmo de um debate político terminar na televisão, em poucos minutos sua repercussão reverbera nas redes sociais com trechos, comentários e interpretações que circulam de maneira massiva em diferentes plataformas digitais. No passado, cabia à televisão e rádio parte dessa capacidade de visibilizar os principais conteúdos em debate para diferentes gerações, mas as transformações midiáticas e a forma de consumir notícias mudaram não apenas no quesito tempo, mas também a partir da perspectiva geracional: 72% dos jovens entre 16 a 29 anos utilizam os meios digitais como principal fonte de notícia, enquanto 21% das pessoas com mais de 60 anos fazem essa escolha, aponta uma pesquisa do DataSenado.
A mudança de comportamento do público fomenta uma discussão inerente ao período eleitoral no Brasil e questiona como a exposição à informação política no ambiente digital pode interferir na forma como as pessoas acompanham e constroem suas percepções sobre a eleição. Além disso, o tema traz à tona os estudos conduzidos por Donald Shaw e Maxwell McCombs, na década de 1960, a respeito da relação da imprensa e os assuntos considerados relevantes para o público. A pesquisa deu origem à Teoria do Agendamento, que atribui aos meios de comunicação o poder de influenciar quais temas ganham maior destaque e, consequentemente, contribuem para definir sobre o que a sociedade deve pensar e discutir.
Informações na palma da mão
De acordo com a jornalista da Agência Lupa Evelyn Fagundes, a informação obtida exclusivamente pelos meios digitais é uma realidade entre os jovens, que estão conectados a essas ferramentas para obter diversos tipos de conteúdo. “No período eleitoral, os jovens recorrem às redes e mídias digitais para buscar informações. O meio digital virou um buscador porque é fácil e prático pegar o celular e verificar informações. No entanto, eles podem ser impactados por conteúdos tanto verídicos quanto desinformativos. Os debates são amplamente repercutidos pela imprensa e, no cenário de disseminação das informações pelas redes, a imprensa também está nas redes”, explica Evelyn.
Para a estudante de Letras de Campos dos Goytacazes Marcele Ribeiro, que vive na região Norte Fluminense, acompanhar as notícias eleitorais não significa necessariamente procurá-las. Ela conta que não busca se informar sobre política, mas as informações chegam até ela compartilhadas por amigos ou ao se deparar com conteúdos quando navega pelas redes sociais. “Geralmente acho os debates muito demorados, então assisto aos trechos que circulam na internet”, relata.
O mesmo acontece para Layla dos Santos, de 24 anos. Ela explica que assiste aos trechos de repercussão na internet e só às vezes acompanha os debates na íntegra. “As redes sociais hoje são minha principal fonte de notícias sobre tudo, raramente assisto ou leio jornal”, conta a moradora de Campos dos Goytacazes.
Nesse sentido, Evelyn Fagundes alerta que o período eleitoral é uma época de decisão e reflexão. “Enquanto eleitores, não podemos nos deixar levar pelo viés de confirmação que é muitas vezes impulsionado pelas emoções de ver um vídeo ou ouvir um áudio. Precisamos sempre parar, ter dúvida e buscar o contexto para tomar uma decisão. Sempre acompanhe os veículos de informação e verificação de fatos, principalmente na época de eleição”, recomenda a profissional.
Novas regras relacionadas à circulação eleitoral e IA
Em abril deste ano, o combate à desinformação nas eleições levou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a aprovar alterações na resolução sobre o uso de Inteligência Artificial (IA) durante o período da propaganda eleitoral. A regulamentação tem como objetivo impedir a disseminação de conteúdos manipulados com a finalidade de difundir fake news ou conteúdos descontextualizados, que causam desequilíbrio à integridade eleitoral. Nos casos de conteúdos criados ou alterados por meio de IA, o responsável pela propaganda deverá sinalizar de modo explícito e acessível.
Outra novidade imposta pelo TSE é a proibição de publicação e republicação, mesmo que gratuita, além de impulsionamento pago de novos conteúdos produzidos com IA no período compreendido entre as 72 horas que antecedem o pleito e as 24 horas depois das eleições. As regras estão previstas na Resolução nº 23.755/26 e, caso descumpridas, o conteúdo será removido imediatamente, seja por iniciativa do provedor de internet ou por determinação judicial.
