unnamed

Foto/Divulgação: Thiago Lontra

Na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), decisões que marcam a história acontecem ativamente ao longo dos anos, e os servidores da Casa acompanham de perto esses eventos. Há 31 anos, Deborah Botelho desce ao Plenário do Parlamento fluminense e, além de presenciar, registra por meio da taquigrafia cada palavra dita pelos deputados que ocupam e já ocuparam as cadeiras tanto do Palácio Tiradentes como do Edifício Lúcio Costa, ao longo desse período. Com a atenção que requer concentração física, cada discurso é transformado em símbolos que só ela e alguns colegas de trabalho sabem decifrar. Maria José Fonseca, sua parceira de setor, contribui há 27 anos para os registros da Casa. Juntas, elas representam quase seis décadas de um ofício que resiste ao tempo.

Enquanto a tecnologia muda a rotina de quase todas as profissões, inclusive a do Departamento de Taquigrafia, Deborah e Maria José se revezam em blocos de cinco minutos para elaborar os registros por escrito das sessões, que são disponibilizados no site da Alerj. Atualmente, o setor de Taquigrafia conta com cerca de dez taquígrafos.

Maria José destaca ainda que a Alerj está entre os órgãos públicos que disponibilizam as transcrições com maior rapidez no Brasil. “São 70 deputados fora as comissões. Em até duas horas, a gente já precisa ter aquela fala pronta”, relata a servidora.

Fonemas e símbolos: técnica de registro

Taquigrafia é um sistema de escrita rápida, baseada não nas letras, mas nos fonemas, os sons. A técnica usa sinais geométricos ou abreviações para registrar a fala humana em tempo real. “Começamos com aquilo que se aprende quando criança: pa, pe, pi, po, pu. No meu método, essa é a base, e acredito que nos outros também seja assim. É uma alfabetização”, explica Deborah Botelho, que deu aula da técnica por 27 anos.

Depois vêm os taquigramas, símbolos que resumem frases inteiras, e, por fim, a etapa do processo que ela define como a mais difícil: a velocidade, treinada em degraus, de 20 a 120 palavras por minuto. Segundo ela, essa fase requer prática constante. Existem vários métodos, como Paulo Gonçalves, Leite Alves, Martí, Maron e Taylor, e, dentro deles, cada taquígrafo acaba criando o próprio dialeto. “Eu não leio o dela, ela não lê o meu”, diz Deborah sobre a colega.

No Parlamento fluminense, um símbolo já carrega frases inteiras. “O dialeto falado aqui é muito específico. Então acabamos criando representações para facilitar, principalmente na votação”, complementa Maria José, que cita como exemplo os taquigramas criados para termos recorrentes do rito do Plenário, como “aprovado em primeira discussão” e “está aberta a discussão”.

A velocidade de escrita, porém, não é o único treino. “Acho que a audição também ajuda, porque é necessário entender com nitidez o que é dito. E foco, é necessário ter muito foco”, resume Deborah, que, nos anos em que deu aula, proibia os alunos de cruzar as pernas ou mascar chiclete durante os exercícios, porque qualquer distração, por menor que fosse, tirava a concentração necessária para acompanhar a fala.

O que a tecnologia ainda não substitui

Apesar de a taquigrafia poder parecer um método antigo em tempos de Inteligência Artificial, as servidoras não acreditam que a profissão será extinta em instituições como o Parlamento fluminense. Para Deborah Botelho, a tecnologia chegou para auxiliar o trabalho, mas ainda não substitui o olhar humano sobre os acontecimentos. Segundo ela, a presença dos profissionais também garante maior segurança ao processo.

“Na taquigrafia, a gente está presente e vê tudo o que está acontecendo. Por isso, consegue transcrever uma exclamação no ar, uma manifestação de repúdio ou qualquer sentimento expresso no plenário. Só quem está presente capta isso”, afirma.

Maria José complementa que a função também contribui para garantir a veracidade dos registros. “Hoje, tudo é muito questionado. Nós somos testemunhas físicas. O material não é alterado, fica guardado comigo e só sai se a chefia pedir. Não tem como ninguém alterar, até porque não saberia como”, destaca.

Para exercer a função, é necessário fazer um curso específico e, segundo Deborah, ter boa audição, domínio da língua portuguesa e habilidade de digitação. “Eu me formei pelo Senac. Não sei se ainda existem outros cursos formais, mas há professoras particulares”, explica a taquígrafa.

Para enfrentar os dias mais intensos de sessão plenária, também é preciso ter resistência física. Maria José lembra que, na época da Constituinte, algumas sessões se prolongavam por muitas horas, começando às 10h e terminando somente à 1h da manhã. “Nesse período, eu sabia a hora que iria entrar, mas não sabia quando iria sair. Mas é um trabalho gostoso, exatamente por não ter rotina. Eu gosto muito e ainda não me aposentei por causa disso”, relata.

É esse gosto pelo imprevisível, somado à disciplina de décadas de treino e trabalho, além da amizade entre as duas, que mantém Deborah e Maria José na função. Depois de tantos anos revezando os mesmos cinco minutos de plenário ou comissões, o que marca as duas não é apenas a experiência, mas a cumplicidade que transforma a rotina de trabalho. “Acho que existe um espírito coletivo, sem muito medo ou receio entre a equipe, também porque não há competitividade”, completa Maria José.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *