Foto/Divulgação: Freepik
Com novos estudos internacionais ampliando as perspectivas para o tratamento, especialista explica o que ainda é mito e o que já se sabe sobre diagnóstico, memória e convivência com pacientes
Um estudo internacional conduzido por pesquisadores da Espanha, do Reino Unido e da China reacendeu as discussões sobre o futuro do tratamento do Alzheimer ao demonstrar, em modelo animal, a redução acelerada de marcadores associados à doença por meio de nanopartículas bioativas. Embora ainda distante da aplicação em humanos, a descoberta reforça um movimento que vem transformando a forma como a ciência compreende o Alzheimer e amplia o debate sobre diagnóstico precoce, qualidade de vida e novas possibilidades terapêuticas.
O tema ganha relevância em um cenário em que o Brasil convive com o avanço expressivo dos casos. Dados do Ministério da Saúde apontam que cerca de 1,8 milhão de brasileiros com mais de 60 anos vivem atualmente com algum tipo de demência, sendo o Alzheimer a forma mais comum. A estimativa é que esse número mais do que triplique até 2050.
Apesar do aumento da incidência e da maior visibilidade do tema, a doença ainda é cercada por desinformação, especialmente em relação aos primeiros sintomas, à progressão do quadro e à convivência familiar. Para a neurologista Sonia Maria Brucki, Coordenadora do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento – GNCC (HCFMUSP) e membro da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), parte do desafio ainda está na dificuldade das pessoas em reconhecer os sinais iniciais e procurar avaliação médica no momento adequado.
Segundo ela, existe uma tendência de associar todo esquecimento ao Alzheimer ou, ao contrário, minimizar sintomas importantes como algo natural do envelhecimento, o que pode até mesmo atrasar o diagnóstico e o início do acompanhamento médico.
“Hoje já sabemos que identificar a doença precocemente faz diferença para o planejamento do cuidado, para a qualidade de vida e para o acesso às terapias disponíveis”, explica a especialista.
A seguir, a Dra. Sonia Maria Brucki esclarece alguns dos principais mitos sobre o Alzheimer:
Esquecer nomes de vez em quando já indica Alzheimer
MITO. Pequenos esquecimentos podem fazer parte do envelhecimento natural. O sinal de alerta aparece quando as falhas de memória passam a comprometer atividades cotidianas, segurança, autonomia ou capacidade de orientação.
Pessoas com Alzheimer tendem a perder primeiro as memórias recentes
FATO. As regiões cerebrais mais afetadas no início da doença estão ligadas à formação de novas memórias. Por isso, lembranças antigas podem permanecer preservadas por mais tempo, enquanto informações recentes se tornam mais difíceis de serem registradas ou recuperadas.
Músicas afetivas podem estimular pessoas com Alzheimer
FATO. A música pode ativar conexões emocionais e cognitivas importantes, ajudando a reduzir ansiedade, agitação e isolamento. Em muitos casos, memórias musicais permanecem preservadas mesmo em fases mais avançadas da doença.
Quem esquece fatos recentes também perde todas as memórias musicais
MITO. A memória relacionada à música costuma envolver diferentes áreas do cérebro e pode permanecer ativa por mais tempo, principalmente quando associada a experiências afetivas repetidas ao longo da vida.
Agressividade, resistência ao banho e confusão tornam impossível uma convivência saudável
MITO. Alterações de comportamento fazem parte da progressão da doença e geralmente estão associadas à desorientação, insegurança e dificuldade de comunicação. Estratégias de acolhimento, adaptação da rotina e suporte especializado podem ajudar significativamente na convivência familiar.
Corrigir constantemente o paciente ajuda na orientação
MITO. Em muitos momentos, insistir na correção pode aumentar frustração, ansiedade e agitação. O mais recomendado é acolher a pessoa, redirecionar a conversa quando necessário e priorizar situações de conforto e segurança emocional.
Já para a Dra. Bruna Antinori, Líder da área terapêutica em Alzheimer da Biogen, o avanço das pesquisas também vem mudando a perspectiva sobre o tratamento da doença. “Durante muitos anos, o cuidado esteve concentrado apenas no controle dos sintomas. Hoje, no entanto, a ciência já avança no desenvolvimento de terapias direcionadas aos mecanismos biológicos da Doença de Alzheimer, o que representa uma mudança importante na forma de abordar a doença”, afirma.
Nos últimos anos, novos tratamentos passaram a atuar diretamente sobre proteínas associadas à progressão do Alzheimer em estágio inicial, ampliando as possibilidades terapêuticas para pacientes elegíveis. Especialistas reforçam, no entanto, que o diagnóstico precoce continua sendo um dos fatores mais importantes para definição do acompanhamento e das estratégias de cuidado.
Diante de sinais persistentes de perda de memória, alterações cognitivas ou mudanças comportamentais, a orientação é buscar avaliação com neurologista ou geriatra. Entidades como a ABRAz também oferecem suporte, informação e acolhimento para familiares e cuidadores em diferentes regiões do país.
Foto: Alberto Madjer
